Chapter

V. Desenvolvimento do Setor Financeiro na América Latina: Recuperação ou Superaquecimento?

Author(s):
International Monetary Fund. Western Hemisphere Dept.
Published Date:
November 2007
Share
  • ShareShare
Show Summary Details

Na América Latina e Caribe (ALC), a atividade dos mercados locais de crédito e capital tem crescido de forma intensa nos últimos anos, com vários países apresentando expansão de dois dígitos do crédito bancário (ver Capítulo 2). Considerando os novos desafios impostos pelo ambiente externo, a questão que surge é até que ponto esse crescimento da intermediação reflete uma resistência maior da região, em vez de um acúmulo de vulnerabilidades.

Este capítulo examina as características da evolução recente do setor financeiro na região da América Latina e Caribe para lançar luz sobre a sustentabilidade da rápida expansão recente do setor financeiro e do crédito, com atenção especial para o crédito bancário. A análise aborda três questões. A primeira é se a aceleração da atividade nos mercados de capital e de crédito bancário está associada a algum aprofundamento e ampliação desses mercados, medidos por melhorias subjacentes na eficiência bancária, liquidez do mercado e número de novas emissões de ações ou títulos. A segunda é se o crescimento vigoroso da disponibilidade de crédito observado em vários países sinaliza uma expansão excessiva e insustentável do crédito ou se é mais provável que reflita, preponderantemente, uma melhoria nos fundamentos macroeconômicos e institucionais. A terceira questão refere-se aos principais desafios regulatórios e institucionais ainda presentes na região, baseada num levantamento de avaliações recentes do setor financeiro.

Aprofundamento financeiro ou bolhas?

O aprofundamento financeiro reforça a resistência de uma economia contra choques adversos, fortalecendo as instituições financeiras, diversificando o risco e distribuindo o capital com mais eficiência, o que também promove o crescimento econômico. O desenvolvimento dos mercados de títulos e ações contribui para o crescimento através da criação de liquidez, que reduz o risco e aumenta a atratividade do investimento quando as empresas levantam capital de longo prazo (Levine, 1996). O bom funcionamento dos mercados de derivativos pode contribuir para esse processo ao distribuir o risco e reduzir os custos da gestão de riscos complexos. Os mercados financeiros da América Latina mantêm-se defasados em relação a outros mercados emergentes. Dados recentes indicam a manutenção desse quadro, conforme medido pelas relações crédito bancário/PIB, capitalização de mercado e capital levantado em mercados de ações. A liquidez do mercado de ações e títulos privados da região também continua relativamente reduzida.

Capitalização do Mercado Interno

(Em percentagem do PIB) 1/

Fontes: Banco de Pagamentos Internacionais e Federação Mundial de Bolsas.

1/ Médias ponderadas pelo PIB. Definida como a soma dos títulos privados locais em circulação e da capitalização do mercado interno de ações.

Taxa de Rotatividade das Ações

(Em percentagem) 1/

Fonte: Federação Mundial de Bolsas.

1/ Médias simples. Definida como a relação entre o valor das ações internas negociadas e a capitalização do mercado.

Contudo, desenvolvimentos recentes na região indicam que há algum aprofundamento e ampliação genuínos nos mercados financeiros da ALC. Primeiro, os custos administrativos, um indicador da eficiência da intermediação bancária, têm diminuído desde 2001. Segundo, os mercados internos de ações e títulos privados nos maiores países latino-americanos têm crescido em termos de capitalização total, embora isso se deva, em parte, ao aumento dos preços dos ativos (ver Capítulo 2). Terceiro, os mercados têm se tornado mais líquidos segundo várias medidas, como o valor total de ações e títulos negociados em relação à capitalização de mercado (ou seja, a taxa de rotatividade), ao PIB e à volatilidade do mercado. Quarto, aumentaram a novas ações e títulos privados cotados nas bolsas de valores de toda a região, embora seus níveis permaneçam baixos. Seus números alcançaram uma média anual de 8 e 200, respectivamente, no período 2004–06, frente a 4 e 155 nos três anos anteriores. Por fim, os mercados de derivativos cambiais negociados em bolsa e os mercados de balcão para derivativos cambiais e de taxa de juro se expandiram em vários países (ver Quadro 10).

Expansão do crédito ou recuperação?

A recente expansão rápida do crédito bancário deve ser examinada à luz do longo período anterior de crescimento negativo do crédito (ver o Regional Economic Outlook de novembro de 2006). Além disso, na medida em que o crescimento econômico traz consigo um certo grau de aprofundamento financeiro, o crédito bancário deverá seguir uma trajetória de elevação durante uma expansão econômica tal qual a que região tem experimentado. No entanto, com a persistência da expansão do crédito na casa de dois dígitos em vários países da região, é importante avaliar a sustentabilidade dessa expansão. Isso é especialmente pertinente para a América Latina, dado seu histórico de suscetibilidade a ciclos de extremos de expansão e contração de crédito Nesta seção, usam-se duas abordagens para identificar expansões de crédito potencialmente insustentáveis: desvios da relação crédito bancário/PIB dos níveis tendenciais (Gourinchas, Valdés e Landerretche, 2001) e comparações entre a relação efetiva crédito bancário/PIB e o nível “potencial” estimado, dados os fundamentos macroeconômicos e institucionais de cada país.

Capital Novo Levantado com Ações

(Em percentagem do PIB) 1/

Fonte: Federação Mundial de Bolsas.

1/ Médias simples. Definido como o valor do capital novo levantado com a venda de novas ações emitidas por um novo emitente, aumentos de capital de empresas já admitidas em bolsa (reservados para acionistas anteriores) e ofertas públicas secundárias (novos acionistas subscrevem as ações).

Comparação de Preços de Ações Durante Períodos de Turbulência no Mercado

(Variação percentual; moeda nacional) 1/

Fonte: Bloomberg, L.P.

1/ Médias simples.

Quadro 10.Mercados de Derivativos na América Latina

Mercados de derivativos que funcionam eficientemente podem proporcionar benefícios significativos a empresas, instituições financeiras e investidores institucionais, permitindo-lhes administrar melhor seus riscos e reduzir seus custos de captação. Por exemplo, uma maior disponibilidade e diversidade de derivativos ajuda a atenuar os riscos cambiais com que se confrontam as empresas latino-americanas, assim como facilita a cobertura contra a variação nos preços das commodities em algumas das maiores economias da região.

Em parte refletindo esses benefícios, as operações com derivativos apresentaram forte crescimento nas maiores economias da região. Em 2006, Brasil, México, Colômbia e Chile juntos registraram volumes diários de negócios próximos a US$110 bilhões (valor nocional). Os derivativos de taxa de juros (swaps, opções e contratos de taxa a termo) representaram cerca de 70 por cento do volume total negociado. Os derivativos de moedas (câmbio futuro e swaps) têm crescido rapidamente na esteira da flexibilização das taxas de câmbio e da conta de capitais, bem como de uma maior integração comercial e financeira. O uso de outros derivativos, tais como os derivativos de crédito locais, continua limitado.

Com volume médio diário de operações de US$46 bilhões em 2006, o Brasil ostenta o maior mercado de derivativos da América Latina, seguido de perto pelo México e pela Argentina. No Brasil, predominam os contratos futuros de taxas de juros e de moedas negociados em bolsa, enquanto a negociação de derivativos no mercado de balcão (principalmente taxa de juros) é relativamente pequena. Em contrapartida, as operações com derivativos no México e na Argentina estão voltadas para instrumentos baseados em câmbio (a maioria relacionada a títulos públicos de curtíssimo prazo) e commodities, respectivamente.

Nos demais países da região, as negociações com derivativos são muito menores e ocorrem principalmente em câmbio ou ativos de renda fixa no mercado de balcão. No Chile, as operações estão concentradas em contratos locais de curto prazo de derivativos de câmbio no mercado de balcão e na negociação de contratos a termo offshore liquidáveis por diferença, a qual tem sido motivada por posições estrangeiras limitadas no mercado de títulos local, custos de transação elevados no mercado interno e limitações regulamentares ao uso de swaps e contratos a termo de taxa de juros pelos fundos de pensão. Na Colômbia, o mercado de derivativos é consideravelmente menor.

Existe espaço para desenvolver ainda mais esses mercados, ao mesmo tempo em que se reforça a supervisão regulatória para mitigar os possíveis riscos de deterioração da conjuntura. Entre as reformas prioritárias, destacam-se:

  • Fortalecer as estruturas jurídicas e regulatórias do mercado de derivativos. As melhores práticas abrangem regras uniformes para capitalização, constituição de garantias e compensação; apresentação de informações completas no balanço patrimonial para aumentar a transparência; normas contábeis compatíveis com os padrões internacionais; um ambiente tributário que garanta igualdade de condições para todas as operações à vista e de derivativos; e disposições para a venda a descoberto.

  • Promover a negociação de derivativos em mercados organizados. No México, a MexDer oferece um conjunto diversificado de instrumentos derivativos, e um sistema eletrônico de liquidação e compensação em perfeito funcionamento permite o monitoramento das operações e sua execução eficiente. No Brasil, a BM&F tem um sólido histórico de produtos inovadores, diversificação de ativos e ampliação da base de investidores. A Colômbia e a Costa Rica estão estudando a possibilidade de expandir as bolsas existentes e criar novas oportunidades para a negociação de derivativos.

  • Estimular a formação de uma base de investidores ampla e equilibrada para que as operações com derivativos proporcionem uma cobertura efetiva. Para que os mercados de derivativos sejam eficazes, especialmente nos países de economia dolarizada, é fundamental gerar, entre os diferentes agentes do mercado, um interesse complementar nas operações de hedge. Os bancos comerciais com passivos de curto prazo (e posições de longo prazo em títulos de renda fixa) e os investidores institucionais com posições de longo prazo em moeda estrangeira têm estruturas de prazo complementares, atuando estes últimos como fornecedores líquidos de moeda estrangeira ou vendedores de taxas flutuantes. A eliminação dos limites ou proibições impostos aos fundos de pensão e seguradoras ajuda, portanto, a promover o hedging e a liquidez dos mercados de capital de um modo geral. No México, por exemplo, a recente eliminação dos limites de investimento e impostos sobre transações para investidores estrangeiros ajudou a aumentar a liquidez do mercado de títulos local.

Observação: Este quadro foi elaborado por Andreas Jobst.

Sob a primeira abordagem, a tendência subjacente é medida usando um filtro específico para cada país. Uma expansão (ou boom) do crédito é detectada quando o desvio do crédito efetivo como proporção do PIB em relação à tendência estimada ultrapassa um determinado limite. Os valores limites são definidos tanto em termos do desvio absoluto (ou seja, a diferença simples entre o crédito efetivo e a tendência como proporção do PIB) como do desvio relativo (ou seja, a diferença entre o crédito efetivo e a tendência como proporção do PIB relativamente à tendência do crédito como proporção do PIB). Os valores limites são selecionados de forma a refletir a maioria dos episódios passados de expansão do crédito e/ou crise bancária (ver Apêndice).

Custos Administrativos dos Bancos

(Em percentagem do total de ativos) 1/

Fonte: Base de dados BankScope da Fitch.

1/ Médias simples.

Nos últimos anos, o crédito ao setor privado como proporção do PIB aumentou em catorze dos vinte maiores países da América Latina e Caribe. Em doze deles, aumentos acentuados do crédito levaram a relação crédito/PIB a ultrapassar seu nível de tendência (ver Painel 1). Contudo, até 2006, nenhum país apresentara crescimento do crédito superior aos valores “limites” que definem um boom. No ano passado, a expansão contínua do crédito resultou na transposição de um ou de ambos os limites em cinco países — Colômbia, Honduras, Jamaica, México e Nicarágua. As expansões do crédito no passado demoraram tipicamente vários anos até entrarem em colapso, embora sugiram que uma expansão continuada de dívidas nesse ritmo poderia dar margem a preocupações. Portanto, ainda é demasiado cedo para concluir que essas tendências constituem um boom insustentável.

As expansões do crédito também podem ser identificadas com base nas previsões de um modelo que relaciona o crédito com os fundamentos econômicos. A capacidade do sistema bancário de um país para conceder crédito ao setor privado com segurança depende tanto das condições econômicas como da qualidade das instituições financeiras e públicas. Nesse contexto, um “boom” de crédito pode ser visto como um aumento do crédito que não se pode justificar pelos fundamentos econômicos e fatores institucionais.

Como os países da América Latina e Caribe se comparam a outras regiões nos fatores que a literatura identifica como determinantes para o desenvolvimento financeiro? Como ressaltaram vários autores (de la Torre, Gozzi e Schmukler, 2006 e Braun et al., 2003), o nível ainda relativamente baixo de desenvolvimento financeiro é decepcionante, dado que vários países da região empreenderam iniciativas significativas para reformar o setor financeiro a partir da década de 1980. Uma comparação regional dos fatores determinantes subjacentes ao desenvolvimento financeiro mostra que a região apresenta relativa solidez em áreas como a de centrais de informação e risco de crédito, mas continua a apresentar fraquezas nos direitos do credor e na governabilidade. Além disso, a inflação e as taxas de juros reais continuam relativamente elevadas mesmo após os recentes avanços macroeconômicos.

Qual é a importância empírica dessas fragilidades para a inibição do desenvolvimento financeiro na região da América Latina e Caribe? Uma nova análise econométrica com base em um painel de 79 países no período 2001–05 mostra que a inflação, a qualidade institucional (medida pelo índice de governabilidade do Banco Mundial) e as taxas de juros reais para depósitos têm efeitos significativos sobre as relações entre o crédito ao setor privado e o PIB. Por exemplo, um ponto percentual de melhoria em cada uma dessas dimensões está associado a um aumento superior a 1 por cento do PIB no crédito ao setor privado. A eficácia da proteção dos direitos do credor, captada pela variável “origem jurídica”, também é relevante — é plausível que reformas do sistema jurídico destinadas a reforçar a proteção de credores e investidores produzam aumentos consideráveis no crédito ao setor privado como proporção do PIB.19 Por último, o crescimento da produtividade que resulta numa elevação do PIB per capita pode também ser útil para promover a intermediação do crédito. À luz desses resultados, qual é a situação dos países da ALC em relação ao seu “potencial”?

Comparação dos Principais Determinantes do Desenvolvimento Financeiro 1/

Fontes: Banco Mundial, FMI e Huang (2007).

1/ Os números representam valores de índices, salvo os referentes à inflação e às taxas de juro real, que são percentagens.

Uma comparação do crédito como proporção do PIB com o nível que seria previsto pelo modelo mostra que, nos últimos anos, vários dos vinte maiores países da ALC têm apresentado um desempenho inferior aos potenciais ajustados ao modelo (Painel 2). Dos cinco maiores mercados emergentes da ALC, apenas o Brasil apresenta um nível de crédito bancário ao setor privado próximo a seu “potencial”, enquanto Chile, México, Peru e Colômbia ainda não colheram todos os benefícios de seus fundamentos relativamente fortes. Segundo esse critério, não há indicação de crescimento excessivo do crédito na Colômbia e no México. Relações crédito/PIB superiores aos potenciais ajustados ao modelo são constatadas em quatro países: Bolívia, Haiti, Honduras e Panamá. Entretanto, em dois desses países, Bolívia e Panamá, isso reflete uma vagarosa dissipação da expansão do crédito nos anos 1990, e não uma expansão recente. No Haiti, isso reflete o colapso (e a lenta recuperação) dos fundamentos como resultado de problemas políticos e sociais.

O ajustamento gradual da oferta de crédito à melhoria dos fundamentos econômicos — resultante de reformas instituídas desde a década passada até anos mais recentes — pode ser também uma das razões para o crédito bancário se manter abaixo do seu potencial em vários países latino-americanos. Ademais, níveis de crédito abaixo do sugerido pelos fundamentos econômicos podem ser também um reflexo de fatores não incluídos nas análises, mas que, não obstante, tendem a reduzir a intermediação do crédito, tais como impostos sobre operações financeiras, controles da taxa de juro e empréstimos dirigidos.

Em suma, os dois critérios mais comuns de crescimento “excessivo” do crédito analisados na região sugerem que a recente expansão do crédito parece estar associada, em grande medida, à melhoria dos fundamentos, não havendo ainda indício claro de superaquecimento geral na região. Essa conclusão é coerente com os indicadores prudenciais e as estimativas mais recentes de solvência bancária baseadas no mercado de ações, que indicam níveis baixos de inadimplência ou probabilidade de inadimplência de empréstimos (ver Capítulo 2 e Quadro 9). Contudo, o cômputo geral pode mascarar o agravamento das vulnerabilidades em certas instituições financeiras que relaxaram suas condições de crédito no intuito de acelerar sua expansão. Embora a extensão dessas vulnerabilidades não seja clara em virtude da dificuldade em obterem-se informações atualizadas sobre a distribuição institucional do crescimento do crédito, o ritmo acelerado da expansão do crédito em alguns países justifica uma supervisão regulatória mais rigorosa e exige a tomada de medidas para reforçar a capacidade de supervisão.

Respostas regulatórias e opções

Um levantamento baseado nos Programas de Avaliação do Sector Financeiro (FSAP) e em consultas nos termos do Artigo IV com países da região mostra que tem havido um avanço considerável no fortalecimento e desenvolvimento dos setores financeiros da região, mas ainda há espaço para melhorias em várias áreas. Primeiro, o aumento da autonomia regulatória e o desenvolvimento da capacidade de supervisão baseada em riscos continuam a ser prioritários em muitos países, sobretudo onde o crédito tem se expandido rapidamente. Segundo, aumentos significativos da participação estrangeira em vários mercados locais de capital e crédito acentuam a importância de uma efetiva supervisão consolidada e transnacional. Terceiro, o papel crescente das instituições financeiras não bancárias, tais como as companhias financeiras e os fundos mútuos, cria um novo desafio regulatório (ver a Tabela 3 do Apêndice, sobre o desenvolvimento do setor financeiro). Quarto, o aperfeiçoamento do quadro de resolução bancária e de redes de segurança financeira (como o esclarecimento das funções de emprestador de última instância, do papel do seguro de depósitos e do planejamento contingencial para crises) será importante para sustentar a estabilidade financeira. Por fim, o recente crescimento dos mercados de derivativos em vários países da América Latina aumenta a importância de que os órgãos reguladores estejam aptos a monitorar e avaliar os riscos associados às inovações financeiras. A experiência dos mercados relativamente desenvolvidos da região (sobretudo Brasil, mas também Chile e México) aponta para a importância das medidas regulatórias, da obrigação de divulgar informações e das normas de documentação para o cumprimento das regras referentes ao capital e ao bom funcionamento dos mercados de derivativos.

Avanço na Reforma do Setor Financeiro

Fonte: estimativas do corpo técnico do FMI. Baseado em informações coletadas sobre os vinte maiores países da região da ALC.

Conclusão

Sustentados por reformas institucionais e quadros de políticas mais robustos, os mercados financeiros da região vêm se tornando mais profundos e amplos nos últimos anos. A análise deste capítulo sugere que a recente aceleração da expansão do crédito na região representa, em grande medida, um processo de recuperação do nível de intermediação financeira após as crises do passado e a implementação de importantes reformas do setor financeiro. Contudo, o ritmo da expansão do crédito indica a necessidade de uma supervisão regulatória mais intensa nos próximos anos. Como reconhecem os governos da região, outras reformas para aprofundar e ampliar os mercados financeiros, bem como reforçar a estrutura institucional, serão importantes para aumentar a resistência no futuro.

Apêndice: Métodos de estimação, definições de variáveis e fontes de dados

Realizam-se dois tipos de análise neste capítulo para produzir uma gama de indicadores de quanto o crescimento do crédito ultrapassou um determinado nível de tendência.

Análise de tendências baseada em filtros

A tendência das séries foi obtida usando a técnica proposta por Hodrick e Prescott (1997) para cada país retrospectivamente. Esse método pode ser significativo em termos econômicos, pois o limite é selecionado com base em episódios passados de expansão do crédito e/ou crise bancária. Os valores limites são definidos tanto para o desvio relativo (ou seja, a diferença entre o crédito efetivo e a tendência como proporção do PIB relativamente à tendência do crédito como proporção do PIB) como para o desvio absoluto (ou seja, a diferença entre o crédito efetivo e a tendência como proporção do PIB). O primeiro é um ajuste referente aos diversos graus de aprofundamento financeiro e o segundo, às diferentes dimensões da economia. Com um limite relativo de 18 por cento e/ou um limite absoluto de 3 por cento, abarca-se a maioria das expansões do crédito ou crises bancárias do passado (por exemplo, as crises no México em 1994–97, no Brasil em 1994–99, no Chile em 1981–83 e no Uruguai em 2002-2003).

Para o período 1960–2006, foram utilizados os dados da publicação International Financial Statistics, do FMI, referentes ao crédito bancário ao setor privado e ao PIB nominal; para 2007, foram utilizadas as projeções do World Economic Outlook referentes ao PIB nominal. Assim, as relações crédito bancário/PIB foram calculadas como o crédito bancário do ano corrente dividido pela média entre o PIB do ano corrente e o PIB do ano seguinte.

Estimativa do nível “potencial” de crédito bancário como proporção do PIB

Foram incluídos tanto os fundamentos econômicos como variáveis institucionais e de política que a literatura considera importantes para o desenvolvimento financeiro. Djankov, McLiesh e Schleifer (2006) constataram que tanto a proteção oferecida pelo sistema jurídico aos credores como as instituições de compartilhamento de informações estão associadas a relações crédito privado/PIB mais elevadas, embora o primeiro fator seja relativamente mais importante nos países mais ricos e o segundo, nos países em desenvolvimento. Um estudo realizado por Huang (2007) concluiu que a liberalização comercial e a boa governabilidade têm efeitos positivos sobre o desenvolvimento financeiro, enquanto a origem no direito civil, volatilidade da inflação e instabilidade das políticas produzem efeitos negativos. Também constatou-se a importância das condições iniciais e da geografia — países de área menor, PIB inicial e população maiores, política comercial mais liberal e instituições mais sólidas têm um nível mais elevado de desenvolvimento financeiro. Um estudo recente realizado por Dehesa, Druck e Plekhanov (2007) constatou que as relações crédito/PIB mais altas estão associadas à maior proteção aos direitos do credor e inflação mais baixa.

Nível Efetivo e de Tendência do Crédito ao Setor Privado, 1960–2006

(Proporção do PIB) 1/2/

Fontes: FMI, International Financial Statistics, e cálculos do corpo técnico do FMI.

1/ Crédito refere-se ao crédito das instituições captadoras de depósitos ao setor privado não bancário. A tendência é obtida aplicando-se um filtro Hodrick-Prescott a cada país, com o parâmetro definido em 100.

2/ As áreas sombreadas denotam crises bancárias, compiladas a partir de Kaminsky e Reinhart (1996), Lindgreen, Garcia e Saal (1996), Caprio e Klingebiel (2002) e Carstens, Hardy e Pazarbaşŏglu (2004).

Crédito Efetivo e Ajustado por Painel, 2001–06

(Proporção do PIB) 1/

Fontes: FMI, International Financial Statistics, e cálculos do corpo técnico do FMI.

1/ Crédito refere-se ao crédito das instituições captadoras de depósitos ao setor privado não bancário. A tendência é a relação entre o crédito ajustado pelo modelo e o PIB.

Usamos regressões GMM IV (método generalizado dos momentos, com variáveis instrumentais) para estimar formalmente os efeitos de vários fatores sobre o crédito bancário ao setor privado como percentual do PIB. Em vista da possível endogeneidade decorrente do nível corrente do PIB per capita, esta variável foi instrumentada usando valores defasados de variáveis explicativas, tais como o PIB e a população iniciais e um índice de fracionalização étnica. Os resultados do primeiro estágio da regressão sugerem que a endogeneidade é de fato um problema, e os testes de relevância e de superidentificação das variáveis instrumentais respaldam a validade desses instrumentos. Variáveis binárias temporais são incluídas para captar a variação dos mercados globais e do sistema bancário nacional ao longo do tempo.

A Tabela da próxima página mostra os resultados das especificações preferidas, que são em geral robustas a mudanças nas especificações. As estimativas são similares àquelas encontradas na literatura, e os coeficientes geralmente apresentam os sinais esperados.20

As estimativas do nível “potencial” de crédito bancário como proporção do PIB baseiam-se em um painel de 79 países abrangendo o período de 2001 a 2005. Os dados anuais sobre o PIB real ajustado pela PPC per capita, medido em dólares internacionais de 2000, e sobre os índices de preços ao consumidor provêm do banco de dados World Development Indicators, do Banco Mundial. Os dados sobre o crédito bancário ao setor privado como proporção do PIB foram obtidos no novo banco de dados do Banco Mundial sobre estrutura e desenvolvimento financeiros. Os dados sobre taxas de juros sobre depósitos vêm do banco de dados International Financial Statistics, do FMI e, quando não há informações disponíveis sobre tais taxas de juros, são usadas as taxas de juros dos títulos públicos. Os dados sobre a restritividade comercial foram obtidos no banco de dados de políticas comerciais do FMI, que inclui classificações baseadas em estruturas tarifárias e barreiras comerciais não tarifárias. As classificações assumem valores de 1 a 10, sendo 10 o valor atribuído aos regimes comerciais mais restritivos.

Os principais dados da qualidade institucional são do Banco Mundial e Huang (2007). A governabilidade e qualidade institucional é a média simples das seis medidas de desenvolvimento institucional — voz e responsabilidade, estabilidade política, eficácia governamental, qualidade regulatória, Estado de direito e controle da corrupção — baseadas em levantamentos abrangentes realizados por Kaufmann, Kraay e Mastruzzi (2007). A informação creditícia e a cobertura das instituições públicas e privadas pelas centrais de risco de crédito (como porcentagem da população adulta total) vêm do banco de dados Doing Business, do Banco Mundial. Os índices de direitos dos acionistas e direitos dos credores baseiam-se em La Porta et al. (1998) e variam de 0 a 6 e de 0 a 4, respectivamente, com os valores mais altos indicando maior proteção dos direitos.

As variáveis instrumentais (PIB real per capita e população total em 1990, além do índice de fracionalização étnica) foram extraídas da Penn World Table 6.1 e de Alesina et al. (2003), respectivamente. A variável binária da origem jurídica para os sistemas francês, alemão e escandinavo baseia-se no banco de dados Global Development Network, do Banco Mundial.

Os dados referentes à área em quilômetros quadrados baseiam-se em Gallup, Sachs e Mellinger (1999).21

Resumo dos Episódios de “Explosão de Crédito”, 1980–2006
Limite relativo = 18%Limite absoluto = 3%Crise bancária 1/
Argentina1980–82, 1998–20001980–81, 1998–20001980–82, 1989–90, 1994–95, 2001–02
Bolívia1982, 19991982, 1993–94, 1997–20001986–87, 1994–95
Brasil1988, 1994–971988, 1994–971990, 1994–99
Chile1981–841980–85, 2001–021981–87
Colômbia1984, 20061982–84, 1996–98, 20061982–87, 1999–2000
Costa Rica1987
El Salvador19851983–85, 1989, 1997–2000
Equador1983–86, 1997–981983–86, 1995, 1997–981982–84, 1996–2002
Guatemala1983–841983–84
Honduras1987–88, 1998–99, 2006
Jamaica1989, 1998–991982–83, 1988–89, 1998–2000, 20061994–2000
México1992–94, 20061992–94, 20061982, 1992–97
Nicarágua1980–82, 1992–93, 1999–20001980–82, 1992–93, 1998–2000, 20061990–96, 2000–01
Panamá20011987, 1994, 1998–2000
Paraguai1982, 19941994, 1997, 20011985, 1995–2000
Peru1981–85, 1997–991997–20001993–94
República Dominicana2000–012001–032003–05
Trinidad e Tobago1985, 1987, 1998
Uruguai1981–82, 1998–20021981–83, 1998–20021981–84, 2002–03
Venezuela1987, 1997, 20051986–871993–95
Resultados da Regressão GMM IV

(Variável dependente: crédito ao setor privado como proporção do PIB) 1/

CoeficientesValor PCoeficientesValor PCoeficientesValor P
Log do PIB real per capita, ajustado pela PPC0.110.000.100.000.110.00
Área em log−0.040.00−0.030.00−0.030.00
Índice de informação creditícia0.010.310.010.210.010.21
Inflação−0.710.00−0.720.00−0.690.00
Taxas de juro real−0.270.12−0.270.11−0.280.10
Governança e qualidade das instituições0.190.000.180.000.180.00
Dummy da origem no direito civil−0.070.01−0.070.01−0.080.00
Restritividade comercial0.100.030.010.02
Centro financeiro internacional0.090.230.080.27
Constante0.030.730.020.800.010.89
Número de observações370370370
R2 centrado0.760.760.76
R2 não centrado0.900.900.90
Estatísticas Resumidas dos Principais Indicadores de Desenvolvimento Financeiro(Média de 2001–05, salvo indicação em contrário)
OCDEAmérica Latina e

Caribe
Leste Asiático e

Pacífico
Oriente Médio e

África

Setentrional
Europa e Ásia

Central
Ásia MeridionalÁfrica Subsaariana
MédiaObs.MédiaObs.MédiaObs.MédiaObs.MédiaObs.MédiaObs.MédiaObs.
Qualidade institucional
Índice de direitos legais6.3883.8806.5523.8485.6724.8164.587
Índice de informação creditícia5.01094.8984.0522.9483.2893.0161.387
Cobetura das empresas privadas de informação de crédito8.88810.9804.95210.0482.5720.2161.587
Cobetura das empresas públicas de informação de crédito59.08438.58036.94414.6489.9642.6164.487
Índice de direitos do acionista 1/3.0882.7363.4402.2202.044.3120.913
Índice de direitos do credor 1/1.9881.3322.8402.5162.043.7121.313
Dummy da origem no direito civil0.71090.9980.3520.8481.050.0160.687
Índice de governança1.4109−0.3980.4520.148−0.25−0.616−0.687
Restritividade comercial3.71093.4982.9525.2364.856.1163.787
Condições iniciais
Log da população em 19909.81099.29810.0489.53610.9511.6169.287
Log do PIB per capita real em 19909.81098.3988.9488.7368.757.5167.187
Log da área11.810912.59811.55212.44813.6512.81612.287
Índice de fracionalização étnica 2/0.21040.4980.3520.3480.350.4160.787
Ambiente macroeconômico
PIB per capital real baseado na PPC27117.81095693.09813307.45211188.7488050.5742490.8161904.287
Inflação do IPC2.21099.1983.3523.2487.3775.9168.087
Taxa de juro real0.2931.0981.5522.0382.2690.8121.180
Fontes: Banco Mundial, FMI e Huang (2007).

    Other Resources Citing This Publication