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Desenvolvimentos Recentes e Perspectivas de Curto Prazo da Economia Mundial

Editor(s):
Hassanali Mehran
Published Date:
September 1985
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Author(s)
Horst J. Struckmeyer

Introdução

A utilidade de um conjunto completo de projecções económicas globais é por si só evidente. Ocorrem constantemente consultas e negociações entre países individuais ou entre grupos de países, e estes contactos serão facilitados se todas as partes se puderem basear em relatórios de aceitação generalizada sobre o estado e as perspectivas da economia mundial. O Fundo Monetário Internacional tem condições especialmente favoráveis para empreender essa tarefa global, graças ao contacto e às trocas de informações constantes com os seus membros. É essa a razão por que o corpo técnico do Fundo elabora duas vezes por ano uma Análise de Conjuntura na qual se analisam o estado actual e as perspectivas de curto e médio prazo da economia mundial. Este trabalho é coordenado pelo Departamento de Estudos do Fundo e baseia-se em informações detalhadas sobre cada país, as quais são apresentadas pelos cinco Departamentos por Áreas Geográficas, além de contribuições do Departamento de Relações Cambiais e Comerciais e do Departamento de Assuntos Fiscais. As análises de conjuntura do Fundo envolvem um trabalho econométrico considerável de forma a reforçar a validade estatística das previsões e a assegurar a consistência interna de elevado número de variáveis económicas que englobam a maior parte dos países membros.

A primeira análise anual de conjuntura é feita logo no princípio de cada ano, tendo como base a informação preliminar correspondente ao ano anterior. As análises de conjuntura são amplamente discutidas pelos Directores Executivos do Fundo. Nos últimos cinco anos, essas análises foram publicadas na série Estudos Ocasionais, do Fundo, sob o título World Economic Outlook: A Survey by the Staff of the International Monetary Fund (Perspectivas Económicas Mundiais, um estudo pelo Corpo Técnico do Fundo Monetário Internacional).

À medida que se torna disponível informação estatística adicional referente ao ano anterior, e as tendências para o ano corrente se começam a desenhar mais nitidamente, a análise anterior é actualizada logo no início do segundo semestre de cada ano e, mais uma vez, discutida pelos Directores Executivos do Fundo. O presente artigo, que foi escrito em fins de Setembro de 1984, baseia-se consideravelmente na última versão do relatório sobre as Perspectivas Económicas Mundiais; também se apoia nalguns dos discursos feitos em Setembro no Encontro Anual do Fundo e do Banco Mundial pelo Presidente da Sessão, pelos chefes das duas instituições e por alguns dos seus Governadores.

I. Tendèncias e Perspectivas Sobre a Produção Internacional, Os Preços e Os Pagamentos

Desenvolvimentos das economias internas

Países industrializados

Depois de três anos de crescimento reduzido, e até negativo, a recuperação económica das economias industrializadas1 começou nos princípios de 1983, quando os Estados Unidos deram o impulso inicial através de um forte ritmo de expansão da sua produção interna. Contudo, desde os princípios de 1984, tem-se tornado cada vez mais evidente que a taxa de crescimento de certo número de países industrializados também tinha começado a subir. De uma forma geral, estima-se que a taxa de crescimento da produção duplicou, de aproximadamente 2,5 por cento em 1983 para cerca de 5 por cento em 1984. Apesar de se esperar que todos os países industrializados, à excepção de dois deles, registem uma aceleração no seu crescimento económico em 1984, é também bastante possível que haja uma grande disparidade nas taxas de crescimento individuais de cada país. Para os Estados Unidos é esperado um crescimento apreciável (acima dos 7 por cento); para o Canadá e Japão foi estimada uma expansão moderada (entre 4,5 e 5 por cento) e para a Europa a previsão é de uma recuperação bem mais modesta. Espera-se que, em 1985, a expansão nos Estados Unidos desacelere até uma taxa tendencial de cerca de 4 por cento e que a taxa de crescimento de produção de todos os países industrializados possa cair até cerca de 3,5 por cento.

A procura interna nos Estados Unidos foi fortemente impulsionada pelo reforço da confiança dos consumidores e por um elevado défice do sector público. A produção expandiu-se particularmente nas indústrias de bens de consumo e na de habitação; desde meados de 1984, o investimento em capital fixo também se tem vindo a consolidar substancialmente. No Japão a recuperação foi iniciada por um reforço da procura interna; ultimamente, porém, o crescimento da procura externa de bens e serviços japoneses tornou-se um factor importante. Na Europa a procura interna não forneceu grande estímulo ao crescimento e a modesta expansão da produção que se verificou reflecte, em grande parte, efeitos externos da recuperação nos Estados Unidos e no Japão.

É de esperar que o crescimento do consumo privado nos países industrializados se mantenha bastante firme em 1985, em particular nos Estados Unidos, Canadá e Japão. A despesa pública agregada não deve chegar a fornecer grande estímulo uma vez que se prevêem contracções nas políticas fiscais em certo número de países. O investimento na habitação já foi refreado este ano pela subida das taxas de juro, e não se espera qualquer recuperação em 1985 neste importante componente da despesa. Nos Estados Unidos a confiança na duração da presente recuperação económica tem impulsionado o investimento em capital fixo por parte das empresas; recentemente, tal investimento também se tem intensificado no Japão, Reino Unido e República Federal da Alemanha. Prevê-se para 1985 uma expansão vigorosa no investimento em capital fixo das empresas.

Apesar do comportamento bastante satisfatório em termos de crescimento e de boas perspectivas, o ponto fraco da situação económica global nos países industrializados continua a ser o problema do desemprego. Só alguns países industrializados conseguiram taxas de crescimento suficientemente altas para absorver a mão-de-obra disponível e para compensar alguns aumentos cíclicos na oferta de trabalho. Assim, não se esperam para 1984 reduções generalizadas na taxa de desemprego. A baixa projectada, na taxa média ponderada de desemprego de todos os países industrializados, de 8,75 por cento em 1983 para cerca de 8 por cento em 1984, reflecte principalmente a redução considerável no desemprego nos Estados Unidos. A gravidade e a dimensão do problema do desemprego são postas em relevo pelo facto de, em pelo menos oito dos 21 países industrializados, se esperar que a taxa de desemprego se mantenha nos 10 por cento, ou mais, em 1984. Dada a desaceleração esperada na taxa de crescimento da produção em 1985, o problema do desemprego no grupo dos países industrializados não deve antenuar-se de forma apreciável.

Um dos factores mais positivos na presente recuperação económica tem sido o progresso significativo que se tem conseguido no combate à inflação. Um certo número de países industrializados tem aplicado rigorosas políticas anti-inflacionárias que já começaram a dar resultados. Em média a inflação, medida pelos preços no consumidor, caiu de aproximadamente 12 por cento em 1980 para menos de 5 por cento em 1983. Para além disso, também houve uma redução significativa na dispersão das taxas de países individuais. Todavia, parece ser difícil conseguir progressos adicionais na redução das taxas de inflação, e está projectado em 1984 e 1985 um aumento de cerca de 5 por cento nos preços no consumidor para o grupo dos países industrializados. De entre os principais países, só no Canadá, França, Itália e República Federal da Alemanha se prevêem para 1984 e 1985 reduções adicionais nas pressões inflacionárias. Se por um lado uma taxa de cerca de 5 por cento na inflação dos preços no consumidor é baixa comparada com os valores verificados após 1973, por outro lado ela é ainda bem superior à média registada na década dos anos 50 e 60.

As taxas de juro nos principais países industrializados caíram em termos nominais desde a segunda metade de 1981 até meados de 1982 a decresceram ainda mais, mesmo em termos reais, durante o período de 12 meses que se seguiu. No entanto, desde meados de 1983, as taxas de juro nominais têm vindo a subir de novo nos Estados Unidos e, como a taxa de inflação permaneceu bastante estável, as taxas de juro reais aumentaram em cerca de 1,5 por cento. De meados de 1983 a meados de 1984, as taxas de juro reais nas outras grandes economias (Japão, França, República Federal da Alemanha e Reino Unido) variaram relativamente pouco.

Vários aspectos especiais relacionados com o recente aumento das taxas de juro tornam bastante difícil a previsão, com um grau de certeza significante, da evolução das taxas de juro no futuro. O primeiro destes aspectos é que a escalada sucessiva das taxas de juro começou a partir de um nível que, segundo os padrões históricos, era já elevado quer em termos nominais quer em termos reais. Em segundo lugar, a margem pela qual as taxas de longo prazo excediam as de curto prazo era bastante grande. Em terceiro lugar, a subida das taxas de juro ocorreu numa altura em que a recuperação económica fora dos Estados Unidos ainda não estava firmemente estabelecida; este desfasamento não havia sido observado durante períodos de recuperação anteriores. Finalmente, a subida nas taxas de juro surgiu num momento em que a situação financeira das empresas nos países industrializados ainda não estava recuperada e em que era ainda fraca a posição dos pagamentos externos dos países em desenvolvimento.

As previsões de crescimento e de inflação apresentadas acima baseiam-se numa série de factores. Se as taxas de juro continuarem tão altas como estão actualmente, ou se subirem ainda mais, a desaceleração esperada no crescimento da produção do grupo dos países industrializados poderá ser ainda mais acentuada. É indiscutível que as taxas de juro elevadas ou crescentes irão enfraquecer o investimento das empresas para a formação de capital fixo, a construção habitacional e as despesas dos consumidores mais sensíveis às variações da taxa de juro.

Outro factor importante relacionado com as perspectivas de crescimento e de inflação é o comportamento da produtividade. É possível demonstrar que os aumentos de produtividade verificados no presente período de recuperação ficam bem aquém dos que foram registados no final da década de 60 e no principio da de 70 em quase todos os países industrializados. Como os aumentos consideráveis de produtividade irão depender em larga medida de taxas de investimento mais altas e da crescente flexibilidade na utilização de factores, muito ficará dependendo do comportamento das taxas de juro e da dimensão dos ajustamentos salariais.

Finalmente, deverá dizer-se uma palavra sobre os inconvenientes de um ritmo de recuperação demasiado rápido. Existe o perigo de que um ritmo acelerado de aumento na produção depare cada vez mais com limitações de capacidade que possam levar facilmente ao reaparecimento de pressões inflacionárias. Este perigo tem particular importância nos Estados Unidos onde a actividade económica se recuperou mais. Seria de facto lamentável que as expectativas inflacionárias fossem reacendidas, produzindo pressões no sentido da subida das taxas de juro, depois da longa, árdua e (em termos de emprego) dispendiosa batalha para reduzir a inflação.

Países em desenvolvimento

Só um pequeno número de países em desenvolvimento é que fornece informação estatística actualizada sobre a evolução das suas economias; todavia, essa informação pode muitas vezes ser completada por dados registados nos países industrializados. Os países em desenvolvimento estão subdivididos em dois grupos: países em desenvolvimento não exportadores de petróleo e países em desenvolvimento exportadores de petróleo.

Países em desenvolvimento não exportadores de petróleo

O factor mais notável na situação económica destes países é o estímulo à produção que resultou da procura externa gerada pela recuperação nos países industrializados. Uma vez que os países não produtores de petróleo aumentaram as suas exportações para as economias industrializadas, a sua taxa de crescimento económico, que tinha vindo a cair continuamente de 6,5 por cento em 1978 a 1,75 por cento em 1982, melhorou até quase aos 2 por cento e espera-se que venha a atingir os 3,75 por cento em 1984. Espera-se também que o ritmo de expansão possa acelerar em 1984, com uma possível taxa de crescimento para o conjunto de todos os países não produtores de petróleo da ordem dos 4,5 por cento.

A recuperação tem afectado alguns destes países mais do que outros. Estão sendo registadas taxas de crescimento acima da média tanto das exportações como da produção industrial nos países asiáticos, em particular na Coreia, Singapura, China, índia e Malásia. Os países em desenvolvimento asiáticos não produtores de petróleo poderão conseguir uma taxa global de crescimento económico de 6,5 por cento em 1984.

O conjunto dos países em desenvolvimento africanos e europeus não tem tido uma evolução muito favorável, visto que as exportações dependem em grande parte dos mercados industrializados europeus; tal como foi referido antes, a recuperação nestes países não tem sido muito acentuada. Onde todavia a recuperação económica se manifestou mais fraca foi nos países do Hemisfério Ocidental. A maior parte dos países dessa região seguiu políticas monetárias e fiscais restritivas a fim de diminuir a inflação e melhorar a situação dos seus pagamentos externos. Apesar do crescimento não dever exceder 1 por cento em 1984 para toda a região, esta taxa modesta tem de ser observada tendo em conta as contracções de producão da ordem de 2,75 por cento no ano anterior. À medida que alguns dos objectivos de equilíbrio interno e externo vão sendo atingidos, espera-se um certo abrandamento das políticas restritivas no conjunto da região e a taxa de crescimento conjunta para os países em desenvolvimento não produtores de petróleo do Hemisfério Ocidental poderá atingir os 3,5 por cento em 1985.

Apesar de fortemente desejável, a recuperação nos países em desenvolvimento não produtores de petróleo é ainda insuficiente para compensar a queda nos níveis de vida que estes países sofreram durante os últimos anos. É provável que os níveis do produto per capita tenham melhorado muito pouco (se é que melhoraram), durante os últimos três ou quatro anos; e tendo em conta o excedente na balança de bens e serviços que esses países foram obrigados a conseguir nas suas contas com o exterior devido ao serviço da sua dívida externa, é bem possível que os níveis de consumo per capita tenham diminuido desde 1980. Assim a disparidade entre as várias zonas do mundo foi muito acentuada. Estima-se que apenas o conjunto dos países em desenvolvimento não produtores de petróleo da Ásia e do Médio Oriente registaram alguma melhoria nos seus níveis de vida, enquanto as outras regiões registaram quedas absolutas; as reduções foram mais acentuadas nos países do Hemisfério Ocidental, bem como nalguns países africanos de baixo rendimento2.

Países em desenvolvimento exportadores de petróleo

Este grupo de países também beneficiou da recuperação económica nos países industrializados. A produção do sector petrolífero destas economias tinha sofrido um declínio contínuo de 1980 a 1983, à taxa média não inferior a 12,5 por cento ao ano. Está, contudo, previsto um aumento anual na produção do sector petrolífero de cerca de 4-5 por cento em 1984 e 1985. Além disso, prevê-se que este melhoramento esperado na evolução das exportações aliviará um tanto as restrições às despesas públicas, contribuindo assim para estimular a actividade económica no sector não petrolífero. A taxa de crescimento de produção do sector não petrolífero destas economias tinha abrandado substancialmente durante o princípio da década dos anos 80 até chegar a 2 por cento em 1983. Graças a maiores receitas petrolíferas, que permitiram o recomeço de uma série de projectos que tinham sido suspendidos ou retardados, a taxa de crescimento do sector não petrolífero agregado dos países em desenvolvimento exportadores de petróleo poderá vir a acelerar até 3,5 por cento em 1984 e cerca de 5 por cento em 1985.

No final de 1984, a evolução da inflação nos países em desenvolvimento foi desfavorável e, ao contrário de expectativas anteriores, estima-se que a taxa de inflação projectada para 1984 será pelo menos tão elevada quanto a de 1983 (cerca de 35 por cento). Não se esperam grandes alterações nas taxas de inflação dos países em desenvolvimento exportadores de petróleo, onde a taxa anual de aumentos nos preços ao consumidor tem flutuado entre os 8 e os 13 por cento desde o final da década dos anos 70. Em comparação, a inflação nos preços ao consumidor nos países em desenvolvimento não produtores de petróleo acelerou de uma taxa anual de 30 por cento no princípio dos anos 80 para mais de 40 por cento em 1983; um aumento adicional desta taxa para 45 por cento está previsto para 1984, em grande parte devido às taxas muito elevadas em cinco países (Argentina, Bolívia, Brasil, Israel e Peru). Para estes cinco países, a taxa de inflação conjunta será provavelmente de mais de 220 por cento em 1984, comparada com menos de 70 por cento em 1978. Espera-se que em 1985 sejam aplicados programas de estabilização nalguns destes países e que a média ponderada da taxa de inflação para os países em desenvolvimento não produtores de petróleo venha a descer para cerca de 30 por cento. Todavia, tal projecção pode vir a revelar-se demasiado optimista uma vez que restrições de política interna poderão impedir a aplicação com êxito de programas de ajustamento.

Situação internacional dos pagamentos

A vigorosa recuperação económica nos países industrializados não só começou a reactivar a produção nos países em desenvolvimento, como aliviou a situação dos seus pagamentos externos. De uma forma geral, o aumento na procura de importações provocado pela recuperação levará provavelmente a um enfraquecimento substancial da balança de pagamentos correntes dos países industrializados em 1984 e a uma melhoria nessa mesma balança nos países em desenvolvimento, repartida em proporções aproximadamente iguais entre países em desenvolvimento exportadores de petróleo e os não exportadores. Espera-se que o abrandamento previsto do ritmo da recuperação nos países industrializados leve, em 1985, a uma redução do défice da balança de pagamentos correntes destes países, e que modere a melhoria nessa mesma balança dos países em desenvolvimento. Infelizmente, a existência de discrepâncias estatísticas significativas aumenta a margem de erro destas projecções.

Não se espera que o aumento na procura de importações nos países industrializados, que está previsto para 1984 e 1985, seja acompanhado por um crescimento igual nas importações dos países em desenvolvimento. Muitos destes países debatem-se ainda com sérios problemas de balança de pagamentos, e outros tencionam melhorar ainda mais a sua posição internacional de pagamentos antes de começarem a abrandar o rigor das suas políticas económicas internas. Embora a passagem para um maior défice de balança de pagamentos correntes nos países industrializados deva ser considerada como um comportamento cíclico normal, as enormes disparidades verificadas entre as situações das balanças de pagamentos dos diferentes países industrializados, considerados individualmente, são motivo de preocupação.

Como seria de esperar, está previsto um forte aumento do volume do comércio mundial em 1984 (8,5 por cento), depois de um declínio em 1982 e de uma modesta taxa de crescimento em 1983. Espera-se em 1985 uma moderação no aumento do volume do comércio mundial, mas a taxa de crescimento, estimada em 5,5 por cento, será mesmo assim superior à média do período 1980-83.

Apesar da recuperação no volume do comércio mundial, os preços internacionais variaram muito pouco. Espera-se que o declínio nos preços em dólares das manufacturas não ultrapasse em 1984 metade daquele que ocorreu durante os anos 1981-83; em 1985 esses preços poderão subir cerca de 4 por cento. Prevê-se que os preços do petróleo vão continuar fracos durante 1985. Os preços dos produtos primários, à excepção do petróleo, que tinham começado a consolidar-se em 1983, deverão continuar bastante firmes durante 1984-85. Com base nestas hipóteses, é de esperar que as razões de troca dos principais grupos de países variem relativamente pouco em termos gerais. Em 1984 deve vir a verificar-se uma perda de 2-3 por cento para os países exportadores de petróleo, compensada por alguns ganhos menores para os países industrializados e por uma subida de 0,5 a 1 por cento para os países em desenvolvimento não exportadores de petróleo. Mesmo assim, tal ganho seria insuficiente para neutralizar a descida que os preços dos produtos primários têm vindo a sofrer durante os últimos anos em relação aos preços industriais. Todavia, estes cálculos devem ser considerados pouco seguros em virtude da força considerável que o dólar americano tem vindo a adquirir no decurso dos últimos tempos.

Países industrializados

Um dos elementos mais importantes ao analisar-se a situação externa de pagamentos dos países industrializados é a subida contínua do dólar americano que foi particularmente pronunciada durante a segunda metade de 1984. Contudo, deve ter-se em conta que as taxas de câmbio efectivas nominais das principais moedas, que não o dólar americano, têm depreciado muito menos que as taxas bilaterais e que, portanto, a competitividade dos países europeus industrializados, contra a qual a valorização do dólar americano foi particularmente forte, não tem sido tão acentuada como poderia sugerir o desenvolvimento das taxas de câmbio nominais.

Em geral assume-se que as variações nas taxas de câmbio em 1983 e 1984 reflectiram mais os desenvolvimentos em mercados financeiros do que alterações da posição da balança de pagamentos correntes. Isto é especialmente verdade para o dólar americano que se poderia esperar sofresse uma tendência para depreciação, em face dos sucessivos défices de grande amplitude nas balanças trimestrais de pagamentos correntes. No entanto, a evolução efectivamente verificada deve ser avaliada tendo em conta a subida nos rendimentos reais dos juros dos activos em dólares americanos. Os investidores de todo o mundo têm, de uma forma geral, partido do princípio de que estas taxas de juro se vão conservar elevadas por causa do crescimento vigoroso da procura de crédito por parte do sector privado americano, da contínua necessidade de grandes financiamentos por parte do Governo Federal dos Estados Unidos e de uma política monetária relativamente restritiva nos Estados Unidos. Para além disso, os investidores estrangeiros têm sido atraídos pelos activos em dólares americanos com base em factores de segurança e nas expectativas de uma recuperação económica duradoira.

A balança de pagamentos correntes conjunta dos países industrializados (incluindo as transferências oficiais) é dominada inteiramente pela balança de pagamentos dos Estados Unidos. A força inesperada da recuperação económica americana e a forte procura de importações a que deu origem são os factores principais em que se baseiam as projecções de um aumento de cerca de US$50 biliões no défice da balança de pagamentos correntes dos países industrializados, o qual atingirá assim cerca de US$90 biliões em 1984. O volume das importações dos Estados Unidos, que tinha crescido pouco na primeira metade de 1983, progrediu a taxas anuais de 30 por cento ou mais durante a segunda metade de 1983 e a primeira de 1984. Considerando o facto de as exportações dos Estados Unidos estarem a ser afectadas negativamente pela apreciação do dólar americano, e ainda o crescimento modesto nos mercados de exportação, prevê-se que o défice comercial dos Estados Unidos aumente em cerca de US$54 biliões em 1984. Tendo em vista, sobretudo, as perspectivas do projectado arrefecimento na actividade económica nos Estados Unidos durante 1985, a taxa de crescimento do défice comercial americano deverá corresponder em 1985 a menos de metade da de 1984, o que significa mesmo assim uma subida estimada do défice da balança de pagamentos correntes em 1985 para US$115 biliões. Assim, para o período de dois anos 1983-85, estima-se que o défice de recursos dos Estados Unidos aumente na ordem dos US$70 biliões.

Prevê-se que apenas parte desta deterioração seja compensada por melhorias nas situações da balança de pagamentos correntes de outros países industrializados. Entre esses destacam-se o Japão (US$20 biliões), a França (US$4 biliões), a República Federal da Alemanha (US$2,5 biliões) e ainda um grupo de países mais pequenos (US$6 biliões). Projecta-se um enfraquecimento da balança de pagamentos correntes do Canadá, Itália e Reino Unido de cerca de 1 a US$3 biliões durante este período de dois anos. Em suma, o défice conjunto das balanças de pagamentos correntes de todos os países industrializados, incluindo as transferências oficiais, que tinha melhorado ligeiramente para US$19 biliões em 1983, deverá aumentar para US$51 biliões em 1984 e US$67 biliões em 1985. Uma parte substancial desta deterioração é explicada por maiores importações de petróleo por parte dos Estados Unidos, Japão e Canadá.

Países em vias de desenvolvimento

A posição da balança de pagamentos correntes do conjunto dos países em desenvolvimento deteriorou-se substancialmente durante o princípio da década de 80, passando de um saldo positivo de cerca de US$20 biliões de dólares em 1980 para um défice de cerca de US$100 biliões em 1982. Esta mudança radical resultou quase exclusivamente da posição dos países exportadores de petróleo, cuja balança de pagamentos correntes passou de um excedente de US$110 biliões em 1980 para um défice de mais de US$10 biliões em 1982. Este défice cresceu moderadamente em 1983 e estima-se que volte a ser da ordem dos US$10 biliões tanto em 1984 como em 1985, dado o enfraquecimento contínuo na procura de petróleo bruto.

Assim, desde 1983, os acontecimentos nos países não exportadores de petróleo têm sido, e espera-se que continuem a ser, de particular relevância para a evolução da situação externa de todos os países em desenvolvimento. A redução no défice da balança de pagamentos correntes conjunta de todos os países em desenvolvimento de cerca de US$100 biliões em 1982, para US$70 biliões em 1983, resultou sobretudo das medidas de ajustamento que foram postas em prática por vários países latino-americanos depois da crise da dívida mexicana em finais de 1982. O défice da balança de pagamentos correntes dos países do Hemisfério Ocidental foi reduzido para menos de metade tendo-se situado em cerca de US$15 biliões no ano de 1983; o do conjunto dos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo caiu à volta de US$30 biliões; e, o que é mais significativo, nos países com mais dívida externa, o défice diminuiu de US$40 biliões em 1982 para US$11 biliões em 1983.

Espera-se que em 1984 e 1985, o défice da balança de pagamentos correntes dos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo estabilize por volta de US$45 biliões. Tendo em conta que para os países exportadores de petróleo se projecta um défice da balança de pagamentos correntes de menos de US$10 biliões, conclui-se que o défice da balança de pagamentos correntes de todos os países em desenvolvimento deverá situar-se entre US$50 e 55 biliões em 1984 e em 1985. Os défices que estão previstos para os países em desenvolvimento não exportadores de petróleo serão da ordem dos 9 por cento das respectivas exportações de bens e serviços em 1984 e 8 por cento em 1985, em comparação com uma percentagem de 45 por cento em 1981. Expressos nestes termos, os défices previstos da balança de pagamentos correntes desses países são os mais baixos das duas últimas décadas.

É interessante notar que a consolidação considerável da posição da balança de pagamentos correntes conjunta dos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo foi inicialmente devida a uma forte compressão de importações, a que se seguiu depois um período de rápido crescimento de exportações que ainda persiste. A queda na procura mundial de exportações dos países em desenvolvimento, o aumento brusco nas taxas de juro reais e o enfraquecimento nos termos de troca já tinham diminuído a procura de importações durante 1981/82. A contracção abrupta na concessão de crédito aos países em desenvolvimento por parte dos credores privados, em finais de 1982, obrigou a restringir ainda mais aquela procura: as importações provenientes dos países desenvolvidos feitas pelos países em desenvolvimento caíram em cerca de 20 por cento em termos do dólar desde princípios de 1981 até fins de 1982. Essas importações estabilizaram, embora a nível reduzido, durante o ano de 1983, graças à contribuição de uma série de esquemas de financiamento estabelecidos em coordenação com programas do Fundo.

Em fins de 1982, quando as importações dos países em desenvolvimento atingiram o seu nível mais baixo, a actividade económica nos países industrializados começou a recuperar-se da sua prolongada recessão. Desde então, a recuperação tem-se acentuado, e o mesmo aconteceu com as exportações dos países em desenvolvimento para os países industrializados. As exportações dos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo aumentaram de um nível equivalente a US$190 biliões, em base anual durante o último trimestre de 1982, para um nível correspondente a US$240 biliões no primeiro trimestre de 1984; é de esperar que esta tendência positiva continue durante o resto de 1984. Todavia, existem sinais que tal crescimento nas exportações dos países em desenvolvimento para os países industrializados não tem sido acompanhado por qualquer aumento nas suas quotas nos mercados desses países, apesar de muitos deles terem adoptado importantes medidas de política comercial baseadas em ajustamentos das taxas de câmbio. Esta evolução pouco animadora reflecte em alguma medida o ressurgimento de políticas proteccionistas por parte dos países importadores, o que constitui um assunto que será tratado mais adiante.

Fluxos financeiros e situações da dívida

Durante 1981 e 1982, os elevados défices agregados da balança de pagamentos correntes dos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo, aumentados por erros negativos e omissões de cerca de US$15 a 20 biliões por ano, foram financiados (por ordem de importância) por entradas autónomas de capital, pelo endividamento externo e pelo aumento das responsabilidades em divisas relacionadas com as reservas. As entradas autónomas de capital incluem os donativos e outros movimentos que não contam para a dívida, bem como empréstimos de longo prazo concedidos pelos credores oficiais. O endividamento externo em termos líquidos refere-se geralmente a financiamentos de credores privados, isto é, bancos e fornecedores; desde 1983, tais financiamentos têm sido concedidos quase exclusivamente sob a forma de empréstimos bancários internacionais. Finalmente, os movimentos das responsabilidades em divisas relacionadas com as reservas consistem sobretudo em empréstimos do Fundo e em variações na quantidade dos atrasados comerciais.

Durante o ano de 1983, as necessidades financeiras dos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo (défice da balança de pagamentos correntes mais os erros e as omissões) caíram em mais de US$40 biliões, e situaram-se nos 65 biliões.

Nesse ano, aqueles países receberam cerca de US$45 biliões provenientes de fluxos autónomos, cerca de US$20 biliões em financiamentos bancários externos líquidos e ainda US$10 biliões concedidos pelo Fundo. O somatório destes recursos financeiros foi suficiente não só para cobrir as necessidades de divisas atrás referidas, como também para permitir o aumento de US$10 biliões nas reservas internacionais que, no ano anterior, tinham descido a níveis excessivamente baixos.

Prevê-se que as necessidades de financiamento dos países em desenvolvimento não produtores de petróleo sejam da ordem dos US$50 biliões por ano, em 1984 e 1985. Não se espera que as entradas autónomas de capital variem muito em relação aos valores atingidos nos últimos anos, ou seja, US$45 a 50 biliões. Espera-se que o montante líquido de outros financiamentos externos estabilize ao nível de quase US$20 biliões registado em 1983, reflectindo mais uma vez quase exclusivamente os empréstimos líquidos provenientes de bancos internacionais.

As responsabilidades em divisas relacionadas com as reservas não deverão aumentar em mais de uns poucos biliões de dólares em qualquer dos anos, uma vez que os empréstimos líquidos do Fundo deverão voltar aos níveis tradicionais e que os atrasados comerciais estão a ser reduzidos graças à melhoria da balança comercial dos referidos países. Por tudo isso, estima-se que as reservas internacionais dos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo possam ser reforçadas em cerca de US$15 biliões por ano. As reservas oficiais na posse deste grupo de países totalizavam US$100 biliões no final de 1983 e está projectado que atinjam cerca de US$130 biliões em fins de 1985; tais níveis de reservas correspondem a 19 por cento e a 21 por cento, respectivamente, do valor das importações de bens e serviços.

Como já foi observado anteriormente, quando foram referidas as taxas de crescimento económico e a evolução da balança de pagamentos correntes, esta análise agregada encobre diferenças consideráveis nas situações individuais de cada país e de cada região. Tais diferenças são particularmente pronunciadas quando se comparam os países do Hemisfério Ocidental com os países asiáticos. É provável que durante o ano de 1984 os países do Hemisfério Ocidental se tenham apoiado muito mais no crédito do Fundo e dos bancos internacionais do que os países asiáticos, apesar de as suas exportações terem sido apenas metade das desses países. De facto, estima-se que os países do Hemisfério Ocidental terão recebido quase todo o crédito líquido privado concedido em 1984 aos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo. Esta evolução, aliada aos elevados financiamentos oficiais, reflecte os programas financeiros que foram preparados para alguns dos maiores países do Hemisfério Ocidental. Estes números implicam um fortalecimento adicional da situação das reservas internacionais, mas é importante assinalar que esse fortalecimento não é atingido através de entradas espontâneas de capital que possam ser facilmente sustentáveis a médio prazo. No caso do grupo dos países asiáticos, as entradas autónomas de capital são suficientes para financiar os reduzidos défices da balança de pagamentos correntes e permitir a constituição de reservas adicionais de divisas. Da mesma forma, não serão necessários para o grupo desses países quaisquer novos financiamentos líquidos dos bancos internacionais. Uma situação semelhante está prevista para os países europeus em 1984. Em contrapartida, os países africanos e os do Médio Oriente estão numa posição bem mais difícil; não se espera que as suas situações de balança de pagamentos correntes melhorem significativamente; em consequência, esses países continuarão a ter necessidade de empréstimos bancários e oficiais e não poderão conseguir melhorias nas suas reservas de divisas.

Não há dúvida alguma que a situação internacional das dívidas externas melhorou durante o ano de 1984, devido principalmente a três razões: 1) os países altamente endividados puseram em prática programas de ajustamento que reduziram substancialmente as suas necessidades de importações; 2) o vigor inesperado da recuperação económica nos países industrializados deu origem a uma forte expansão nas exportações dos países em desenvolvimento; e 3) a comunidade bancária mostrou-se disposta a negociar consolidações das dívidas externas em melhores condições no caso dos países que foram bem sucedidos na aplicação de programas de ajustamento. Em resultado, estima-se que a taxa anual de aumento na dívida externa dos países em desenvolvimento não exportadores de petróleo venha a estabilizar por volta dos 6 por cento durante o período 1983-85. Contudo, dado que se espera um crescimento apreciável no volume de exportações de bens e serviços daqueles países durante o mesmo período, prevê-se que o rácio entre o montante da dívida externa e as exportações venha a descer do seu valor máximo de 154 por cento registado em 1983 para menos de 140 por cento em 1985.

Depois de subir durante três anos consecutivos a um ritmo anual de US$90 biliões, a dívida total dos países em desenvolvimento3 atingiu mais de US$740 biliões em 1982. Por causa da suspensão quase total na concessão de créditos a alguns países do Hemisfério Ocidental, o ritmo de subida anual da dívida externa total dos países em desenvolvimento foi reduzido a mais de metade, e o aumento foi da ordem de US$40 biliões em 1983; espera-se que o crescimento anual continue aproximadamente nestes níveis durante 1984 e 1985, atingindo o endividamento total dos países em desenvolvimento cerca de US$860 biliões no fim de 1985. A componente de curto prazo da dívida externa atingiu um valor máximo de US$150 biliões em 1982, ou seja 20 por cento da dívida total. Desde então, o endividamento a curto prazo tem caído progressivamente até um pouco abaixo dos US$100 biliões (cerca de 12 por cento do total) no final de 1984.

Depois de ter vindo a cair continuamente desde os finais dos anos 70, a percentagem de empréstimos, concedidos por fontes oficiais, no endividamento total atingiu o nível mínimo de 28,5 por cento em 1982. É claro que esta evolução reflectiu a actividade crescente na concessão de empréstimos externos por parte do sistema bancário internacional que ocorreu durante esses anos. Todavia em 1983, o crescimento na concessão de crédito oficial aos países em desenvolvimento começou a acelerar e espera-se que esta tendência continue em 1984 e 1985. Assim, a percentagem de empréstimos oficiais na dívida total deverá atingir os 34 por cento, o que corresponde ao nível registado há quase dez anos atrás.

As percentagens da Ásia, África e Médio Oriente na dívida total têm flutuado bastante pouco desde os últimos anos da década de 70, cabendo à Ásia cerca de 25 por cento, à África 10 por cento e ao Médio Oriente 8 por cento. No caso dos países europeus e do Hemisfério Ocidental tem havido, porém, algumas alterações relativas; enquanto a percentagem da Europa desceu de 14 por cento em 1977 para 11 por cento em 1983, a dos países do Hemisfério Ocidental aumentou de 41 por cento para 45 por cento, respectivamente. Espera-se que durante os anos de 1984 e 1985, os países asiáticos recebam uma proporção de empréstimos externos comparativamente mais elevada e que suceda o contrário no caso dos países do Hemisfério Ocidental.

As disparidades entre os grandes grupos geográficos de países são ainda mais pronunciadas se o total da dívida externa das várias regiões for expresso em percentagem das exportações de bens e serviços. Não surpreende que os rácios mais elevados tenham sido registados em 1983, embora no caso da Ásia (83 por cento) e da Europa (127 por cento), estes rácios tenham aumentado comparativamente pouco desde os fins da década dos anos 70. O rácio mais elevado de dívida foi registado pelos países do Hemisfério Ocidental, onde atingiu 300 por cento, contra menos de 190 por cento apenas três anos antes. Os rácios para a África e para o Médio Oriente subiram substancialmente durante os últimos anos, tendo atingido 221 por cento e 173 por cento, respectivamente, em 1983. Graças aos esforços de ajustamento e à recuperação das exportações, prevê-se que os rácios da dívida em relação às exportações venham a cair rapidamente em 1984 e 1985 nos casos dos países do Hemisfério Ocidental, da Europa e da África; a descida será mais moderada nos países do Médio Oriente, devido a uma continuada debilidade das exportações de petróleo, e nos países asiáticos por causa da aceleração prevista na contracção de novos empréstimos externos.

O serviço da dívida externa dos países em desenvolvimento atingiu um valor máximo em 1982, quer em termos absolutos quer em termos relativos. O valor dos pagamentos do serviço da dívida excedeu US$125 biliões nesse ano, com os pagamentos dos juros (mais de US$70 biliões) a excederem as amortizações em quase um terço. O serviço da dívida, expresso como rácio em relação às exportações de bens e serviços, subiu para 25 por cento, comparado a menos de 20 por cento em 1980. No entanto uma série de acordos de reestruturação da dívida externa impediu que o rácio do serviço da dívida tivesse continuado a crescer em 1983, devido ao fraco comportamento das exportações e à estrutura dos prazos de vencimento da dívida dos países em desenvolvimento. Os pagamentos do serviço da dívida caíram para cerca de US$115 biliões em 1983, e o rácio do serviço da dívida caiu para 22 por cento.

Em 1984 e 1985, prevê-se que os pagamentos do serviço da dívida externa aumentem a uma taxa média anual de cerca de 12 por cento; essa taxa corresponde aproximadamente ao crescimento previsto das exportações dos países em desenvolvimento. Tendo em conta novos acordos de reestruturação, o rácio do serviço da dívida deverá voltar a cair um pouco mais em 1984. A descida nas taxas de juro internacionais em 1982-83 e a consolidação de alguns pagamentos dos juros a credores oficiais levaram o rácio dos juros a cair em 2 pontos para 25 por cento em 1983. Espera-se que esse rácio se mantenha ao nível de 24-25 por cento em 1984-85, com a provável subida nas taxas de juro a ser compensada pelo crescimento das exportações.

A distribuição desigual da dívida entre países em desenvolvimento atrás mencionada conduz a uma situação igualmente desvirtuada nos rácios do serviço da dívida por região. Em 1983, o rácio mais baixo (10 por cento) foi registado pelo grupo dos países asiáticos, seguidos pelo dos países da Europa, África e Médio Oriente, com cerca de 22 por cento cada um. O rácio do serviço da dívida para os países do Hemisfério Ocidental foi de 48 por cento, o que representa uma descida considerável em relação ao ano anterior, explicada pelos vários acordos de reestruturação entretanto concluídos. Esperam-se aumentos nesses rácios durante 1984-85 nos grupos dos países da África, Europa e do Médio Oriente; espera-se que a Ásia continue no nível de 1983 e que o rácio para os países do Hemisfério Ocidental desça de novo, ainda que moderadamente, graças a novos acordos de reestruturação e ao crescimento das exportações.

II. Os Mais Importantes Problemas a Resolver

Apesar da situação económica mundial ter melhorado bastante em relação a um ano atrás, uma atitude demasiado complacente sobre o actual estado de coisas poderia ser perigosa. Não existe qualquer garantia de que a recuperação económica actual se mantenha a médio prazo num cenário de estabilidade dos preços internos e de uma posição externa sustentável. O que é preocupante é a disparidade nas taxas de crescimento dos diversos países; se essas taxas forem demasiado elevadas podem reavivar expectativas inflacionárias e, se forem demasiado baixas, não permitirão a recuperação do terreno perdido durante a última recessão.

Outro motivo de preocupação é o nível persistentemente elevado das taxas de juro reais que não só agravam o problema da dívida internacional, como debilitam o esforço de investimento que é tão crucial para um crescimento económico sustentado. Igualmente preocupante é a tendência crescente que se está a verificar nos países industrializados de restringir o comércio internacional, sobretudo por razões de protecção ao emprego interno. É por isso bastante compreensível que os países em desenvolvimento estejam particularmente inquietos com esta tendência, uma vez que essas políticas proteccionistas poderão vir a refrear a recuperação que está em curso nesses países. Neste contexto delicado em que se contrabalançam os objectivos internos com os externos e os interesses nacionais com os internacionais, será necessária uma cooperação forte entre os países, e os principais intervenientes neste cenário deverão elaborar políticas que sejam compatíveis com os interesses de todos os países.

Países industrializados

A política monetária tem uma importância crucial para os países industrializados. Esta política deverá ser orientada no sentido de reduzir ainda mais a inflação e as expectativas inflacionárias. Apesar de a taxa de inflação dos países industrializados ter sido reduzida de uma forma notável durante os últimos anos, não nos devemos esquecer que, em 1984, ela continua a exceder em 1 a 2 pontos percentuais a taxa média anual registada durante a recuperação do princípio e meados da década dos anos 60. A política monetária deverá ter um âmbito de médio prazo e deverá ser orientada no sentido da redução gradual das taxas de inflação básicas.

Há quem sugira o abrandamento da política monetária com o propósito de reduzir as taxas de juro reais. Tal medida seria um erro grave. É duvidoso que mesmo no curto prazo tal política desse resultado, uma vez que o acesso ao crédito mais fácil poderia activar as expectativas inflacionárias, exercendo assim novas pressões para a subida das taxas de juro. A sugestão do recurso à política monetária para reduzir as taxas de juro ignora a causa principal das taxas de juro elevadas, ou seja, a utilização crescente da poupança disponível por parte do sector público. O que é necessário, por conseguinte, é que os défices desse sector sejam reduzidos e que o crescimento das despesas públicas seja contido. No curto prazo, uma tal política poderá exigir um aumento da tributação, mas no médio e longo prazo, a parte do sector público no rendimento nacional deverá ser reduzida através da limitação das despesas.

Entre os países industrializados tem havido um aumento nas tendências proteccionistas, devido à elevada taxa de desemprego provocada pela última recessão. Especialmente na Europa, a taxa de desemprego tem-se mantido mais elevada do que em qualquer outra fase anterior de recuperação. Os obstáculos ao comércio livre são motivo de sérias preocupações não só para os países em desenvolvimento, como tambén para os países que os impõem. Se, por um lado, a introdução de restrições à importação poderá permitir manter alguns postos de trabalho no curto prazo, os efeitos negativos de longo prazo no crescimento sem inflação, na eficiência, e mais tarde mesmo no próprio emprego, virão a ter mais peso que esses ganhos de curto prazo. Estamos numa era em que a tecnologia evolui rapidamente, o que requer uma alocação óptima dos recursos, um elevado grau de eficiência económica e taxas atractivas de retribuição do investimento. A redução das despesas governamentais não deverá apenas aumentar a eficiência económica, mas também reduzir as taxas de juro e aumentar assim a retribuição do investimento. Tais políticas deverão ser acompanhadas de uma crescente flexibilidade no mercado do trabalho; a insistência em manter contratos e regulamentações legais (como as disposições sobre indexação automática ou semi-automática), que foram já ultrapassadas pela realidade económica, proporciona um falso e perigoso sentimento de segurança no emprego. É preferível lidar com a obsolescência e redundância da especialização profissional de certos grupos de trabalhadores através da reaprendizagem e da mobilidade do factor trabalho.

Os bancos privados internacionais

Os credores internacionais, quer privados quer oficiais, têm a obrigação de se orientarem por um espírito de cooperação internacional e não apenas por objectivos de maximização de lucros ou por interesses nacionais restritos. Em especial, os bancos internacionais privados, que até finais de 1982 tinham recorrido à concessão de empréstimos externos movidos por perspectivas de lucros elevados, terão agora de mostrar compreensão em relação à dinâmica do processo de ajustamento. Não existe qualquer fórmula específica que possa ser aplicada a todos os países; cada caso é diferente dos outros, e para cada país tem de se encontrar uma via de ajustamento especial que leve em conta não só a situação da sua balança de pagamentos externos, mas também as circunstâncias sociopolíticas internas. Como afirmou em Washington o Director Geral do Fundo, no seu discurso na Reunião Anual em Setembro de 1984, a compreensão do processo de ajustamento, por parte das instituições credoras, “… envolve uma boa vontade contínua de proporcionar o financiamento adequado aos países que estão a fazer esforços genuínos para resolver os seus problemas. Envolve também o desejo de encarar os problemas da dívida externa num contexto de médio prazo, e de levar em conta o progresso no sentido do ajustamento, através de financiamentos adequados”.4

Países endividados

Depois de vários anos de compressão das importações e de redução no nível de vida, os países em desenvolvimento estão a entrar numa fase de crescimento e de expansão das exportações. Todavia, esta evolução altamente desejável não deverá constituir motivo para abandonar a continuação de políticas de ajustamento apropriadas, nos casos em que a viabilidade da posição externa de pagamentos não está ainda assegurada a médio prazo. O ajustamento não é uma opção de política económica, mas sim um imperativo de sobrevivência económica. No entanto, as medidas de ajustamento são mais facilmente aceites sob o ponto de vista social e político quando acompanhadas por crescimento económico. A pior altura para se pôr em prática um programa de ajustamento é quando a urgência da situação externa de pagamentos não deixa espaço algum de manobra e impõe grande severidade nas medidas a aplicar.

Durante a última Reunião Anual, o Director Geral do FMI descreveu os seguintes elementos-chave de uma estratégia de ajustamento eficaz:

  • — Políticas anti-inflacionistas mais rigorosas para melhorar o clima de investimento;

  • — Correcção dos desequilíbrios fiscais e redução contínua das despesas do Estado, a fim de assegurar que elas não contribuam para as pressões inflacionárias e não absorvam recursos que seriam utilizados de uma forma mais produtiva pelo sector privado;

  • — Preços internos realistas e flexíveis (incluindo especialmente a taxa de câmbio, as taxas de juro e os principais preços administrados), de forma a melhorar a alocação de recursos e a promover o crescimento.

Estas políticas têm sido frequentemente qualificadas de vistas curtas e de serem dirigidas contra o crescimento económico. O que sucede é precisamente o contrário; essas políticas são indispensáveis à criação do ambiente no qual se possa desenvolver um crescimento elevado e sustentável com equilíbrio interno e externo. Frequentemente, por razões internas, os países sentem que não dispõem de tempo para preparar o terreno para o crescimento económico e optam por políticas expansionistas que estimulam artificialmente o crescimento no curto prazo. Tais “ganhos” de curto prazo são contraproducentes no longo prazo, uma vez que as medidas necessárias para corrigir os desequilíbrios internos e externos que daí resultam acabam por anular os benefícios de curto prazo. Não surpreende por isso que muitos dos países que têm sido melhor sucedidos na aplicação de programas de ajustamento, e na redução do rigor das condicionantes externas, sejam exactamente aqueles em que a produção está actualmente a recuperar a um ritmo mais acelerado.

Contudo, nem todos os países em desenvolvimento estão já no caminho que os pode trazer de volta a uma situação de crescimento em equilíbrio. A inflação mantém-se extremamente elevada em alguns países, dado que as despesas públicas excessivas e ineficientes permanecem em grande medida incontroladas; ao mesmo tempo, a maioria destes países, onde se verificam taxas de inflação elevadas, tem interferido com o mecanismo de preços, provando mais uma vez que o contrôle das taxas de câmbio, das taxas de juro e de outros preços-chave na economia, conduz à má alocação de recursos e não à estabilidade de preços. Muitos destes países terão necessidade de desenvolver e de pôr em prática novos programas de ajustamento, um processo no qual o Fundo Monetário pode ajudar com a sua capacidade técnica, com os seus recursos e com o seu papel catalisador na mobilização de recursos de outros credores.

Cooperação internacional

Já foi afirmado anteriormente que a economia mundial se está a tomar cada vez mais interdependente. Isto significa que nenhum país pode agir isoladamente e que um grau elevado de cooperação internacional é desejável para superar os problemas económicos. Tal cooperação não se refere apenas a problemas ligados ao comércio mas também aos fluxos de capital e, de uma forma mais geral, a uma harmonização das políticas económicas. Mesmo diferenças reduzidas na orientação política e económica entre dois países irão mais tarde reflectir em evoluções divergentes de custos e de preços, as quais, ceteris paribus, necessitam de ser corrigidas através de ajustamentos da taxa de câmbio, se se quiserem evitar sérios desequilíbrios externos. Neste nosso mundo de amplas interacções económicas, o Fundo tem uma função dupla importante, ou seja, uma função preventiva e uma função curativa. A primeira refere-se principalmente à capacidade que o Fundo tem de actuar como um fórum para vigilância multilateral, através do processo formal de consultas regulares com os seus membros. No decurso destas consultas, em grande maioria realizadas num ciclo de 12 meses, os países membros entram em análises e discussões exaustivas com o Fundo sobre as suas políticas económicas; um relatório objectivo sobre estas trocas de pontos de vista é mais tarde discutido no Conselho de Directores Executivos do Fundo, no qual os representantes dos restantes países membros se pronunciam sobre as políticas económicas do país em questão, quer em termos de adequação interna quer em termos de compatibilidade internacional. É claro que o sucesso deste processo de vigilância depende do consentimento dos países membros em submeter as suas políticas económicas ao escrutínio de outros, num espírito de colaboração internacional. No decorrer deste processo, a ênfase é posta na persuasão e na prevenção. Ao contrário, se através de políticas internas deficientes e/ou factores exógenos a posição externa de pagamentos de um país enfraqueceu substancialmente, o Fundo passa do papel de conselheiro para o de fornecedor de assistência financeira. Neste contexto, nunca é demais sublinhar que os países terão interesse em estabelecer acordos financeiros com o Fundo o mais cedo possível e não apenas quando estiverem na iminência de um colapso financeiro externo. Quanto mais cedo um programa de ajustamento for implementado, menos pesados serão os custos de ajustamento, visto que há mais opções de política económica em aberto. Este é um aspecto que é frequentemente ignorado pelos países, na esperança vã de que alguma melhoria exógena, e não uma alteração nas políticas internas, provoque uma reviravolta nas suas dificuldades económicas.

A capacidade do Fundo para financiar ajustamentos ordenados foi substancialmente reforçada já no fim de 1983 através do aumento das quotas para quase 90 biliões de DES (direitos especiais de saque) e por meio de acordos internacionais com uma série de países industrializados, no âmbito dos Acordos Gerais de Empréstimos (General Arrangements to Borrow) e bem assim através de acordos com a Arábia Saudita e com o Banco de Pagamentos Internacionais (Bank for International Settlements). Também se verificou durante o último ano um grau notável de colaboração por parte dos credores internacionais, quer privados quer públicos, de importância fundamental para tomar possível a evolução ordenada da situação internacional da dívida externa. Os credores públicos têm feito importantes contribuições através do refinanciamento da dívida sob a égide do Clube de Paris. A cooperação dos bancos comerciais tornou-se particularmente evidente durante a recente negociação do acordo de reestruturação plurianual com o México. É importante notar que esse acordo de reestruturação foi possível devido à execução com sucesso do programa de ajustamento por parte do México. Embora seja provável que uma série de outros países irão necessitar de acordos semelhantes de reestruturação das suas dívidas externas, há que esclarecer que não existe nenhuma receita única de validade universal; pelo contrário, cada caso tem de ser analisado individualmente por todas as partes envolvidas. O que será mais importante nesse aspecto é que um país demonstre empenho e consiga êxito em pôr a sua casa em ordem.

Um total de 21 países, incluindo os Estados Unidos, o Japão, a República Federal da Alemanha, o Reino Unido, a França, o Canadá e a Itália.

Os países de baixo rendimento são definidos como os 43 países onde o produto nacional bruto per capita, estimado pelo Banco Mundial, não ultrapassou o equivalente a US$350 em 1978.

Aqui definidos como países em desenvolvimento não exportadores de petróleo com excepção de oito países do Médio Oriente.

Fundo Monetário Internacional, Summary Proceedings of the Thirty-Ninth Annual Meeting of the Board of Governors. September 24-27. 1984 (Washington, 1984), p. 24.

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