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Author(s):
International Monetary Fund
Published Date:
September 1985
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João Batista de Abreu

A dissertação, elaborada pelo Struckmeyer, prima pelo apuro em apresentar, de forma metódica e dentro de moldura adequada, realidades e cenários possíveis, para 1985, das economias dos países industrializados e em desenvolvimento, estes últimos subdivididos entre produtores e não produtores de petróleo.

O trabalho vai muito além de mera catalogação de fatos e construção de cenários. A análise por blocos de países pareceu-nos uma orientação engenhosa, visto que esse confronto, entre outras vantagens, deixa patente a elevada, e ainda crescente, dependência dos países em desenvolvimento às linhas de política económica seguidas pelos países industrializados; mais ainda, o cotejo permite, sem esforço maior, testar a consistência dos cenários construídos.

De forma objetiva, o texto demonstra que a recuperação dos países industrializados ocorreu quase ao mesmo tempo, porém respondendo a estímulos de origens distintas. Salvo peculiaridades, é reconhecido que a “alavancagem” inicial foi induzida pela expansão do nível de demanda agregada nos Estados Unidos. No caso particular dos países em desenvolvimento não produtores de petróleo, o dinamismo observado resultou, em boa medida, do bom desempenho das exportações destinadas aos países industrializados. Essa melhora das exportações, aliada a restrições impostas às importações, proporcionou sensível alívio às pressões sobre a balança de pagamentos. Nesse ponto, o trabalho realça que, não obstante todos os países se terem beneficiado da retomada do crescimento da economia americana, o bloco dos países europeus e asiáticos foi o mais favorecido. Com respeito a estes últimos, ressalte-se que muitos deles promoveram programas de ajustamento económico à época do segundo “choque” do petróleo, propiciando-lhes posição privilegiada atualmente, inclusive na atracção de empréstimos externos voluntários. Os demais países em desenvolvimento não produtores de petróleo deparam-se ainda com dificuldades, cujo equacionamento vem, aos poucos, sendo obtido pela implementação de programas de ajuste no plano interno e externo.

No que tange aos cenários para 1985, o quadro é moderadamente otimista em face da manutenção do crescimento das economias industrializadas em bases mais modestas, porém, ainda assim, capaz de permitir aos países em desenvolvimento soluções menos traumáticas para o seu endividamento. Sob esse aspecto, o esquema do reescalonamento de compromissos no âmbito dos bancos privados e as negociações no Clube de Paris vêm demonstrando, aos poucos, a sua viabilidade. O sucesso dessas negociações e a recuperação, em base menos instável, da economia mundial poderão ensejar um equacionamento mais satisfatório para a dívida dos países mais pobres.

O autor não descarta, todavia, algumas dificuldades que poderiam ocorrer no círculo dos países industrializados. Do lado dos países em desenvolvimento, sobressaem as preocupações com as condutas protecionistas dos países industrializados, que buscariam nessa orientação solucionar seus problemas de desemprego. Outro aspecto desfavorável poderia advir de um recrudescimento da inflação, especialmente nos Estados Unidos, derivado do esgotamento da capacidade produtiva, que se vem ressentindo da baixa taxa de investimento privado. Além disso, as expectativas com relação à taxa de juros apontam no sentido ascendente, graças, principalmente, a uma elevação da demanda de crédito e à permanência de uma política monetária mais restritiva.

Parece oportuno, ainda com respeito às expectativas para o ano em curso, fazer referência às controvérsias sobre a duração e a amplitude da desaceleração da economia americana manifestada no terceiro trimestre do ano passado. Essa particularidade não chegou a ser aludida no trabalho, porquanto essas informações se tornaram disponíveis posteriormente à sua elaboração. Os indicadores da economia dos Estados Unidos, correspondentes ao terceiro trimestre, registaram uma expansão do produto de apenas 1,9 por cento contra 7,1 por cento ocorrida no segundo trimestre. Essa brusca alteração deveu-se a uma estabilização do crescimento industrial e a uma queda acentuada da construção civil; mais ainda, o déficit comercial atingiu valor quase duas vezes superior ao verificado dois anos atrás. A despeito da opinião da maioria dos observadores que admitem ser essa mudança transitória, seria interessante aprofundar um pouco mais esse debate.

Outro ponto relevante refere-se aos cenários da economia americana para 1985. O trabalho elaborado pelo Struckmeyer, da mesma forma que a Administração Reagan, prevê cerca de 4 por cento para a expansão do produto, em confronto com 3 por cento (potential growth rate) admitidos por publicações especializadas. O diferencial poderia ser negligenciado se os valores envolvidos não tivessem tanta expressão—1 por cento a menos significa uma redução de, aproximadamente, US$37 bilhões no produto; o déficit fiscal expandir-se-ia em US$4 bilhões, a partir de uma projecção de US$205 bilhões para 1985. A persistência desse ritmo de crescimento para 1986 resultaria num déficit fiscal adicional de US$70 bilhões, mantidas, naturalmente, as atuais linhas de política.

Porém, o fato que está a causar maior preocupação à Administração Reagan é o crescimento alarmante do déficit comercial. As estimativas correntes apontam um déficit da ordem de US$150 bilhões para 1984 e cerca de US$175 bilhões para 1985. Por decorrência, a procura agregada cresceu cerca de 5,7 por cento no terceiro trimestre de 1984 contra uma expansão de apenas 1,9 por cento do produto—foi o maior diferencial de taxa verificado nos últimos 30 anos. Está a observar-se uma recuperação dos investimentos em capital fixo, contudo; cerca de 30 por cento de todo o equipamento empregado é originário de importações. As estratégias ventiladas para o equacionamento do problema vão desde um “afrouxamento” da política monetária—afetando as taxas de juros para baixo e, por conseguinte, acarretando enfraquecimento do dólar e melhoria do nível da competitividade das exportações—até o recrudescimento de uma política protecionista. No tocante ao “afrouxamento” da política monetária, pairam dúvidas quanto à sua eficácia, tendo em vista a existência de retardos (queda de 1 por cento da taxa de juros afeta o produto em cerca de 0,06 porcento, num prazo de pelo menos 1 trimestre), e quanto ao risco de pressões inflacionárias. É motivo de grande inquietação, especialmente para os países em desenvolvimento, o despontar de pressões que venham a levar os governos dos países industrializados, especialmente os Estados Unidos, a lançarem mão de medidas protecionistas. No caso americano, esse receio é mais fundado, uma vez que US$35 bilhões de déficit comercial acarretam uma queda do produto em cerca de 1 por cento e traduzem redução do nível de emprego da ordem de 700.000 vagas.

A adoção de políticas protecionistas por parte dos Estados Unidos poderia representar um elemento desestabilizador no processo de recuperação que está a beneficiar os países em desenvolvimento, quase todos eles às voltas com programas de ajustamento celebrados no âmbito do Fundo. Conforme acentua o trabalho do Struckmeyer, a melhoria da performance dos países em desenvolvimento não produtores de petróleo deveu-se, quase que exclusivamente, às exportações. Nesse ponto, o caso brasileiro é digno de ser destacado. O crescimento das exportações brasileiras de produtos manufaturados foi preponderantemente explicado pela melhoria significativa do mercado americano—os mercados do Terceiro Mundo praticamente deixaram de existir. O ajuste da economia brasileira foi feito numa velocidade sem precedentes—superávit comercial de US$6,5 bilhões em 1983 e US$13 bilhões em 1984; a participação da poupança externa (déficit em transações correntes) evoluiu de 5,5 por cento do produto interno bruto (PIB) em 1982 para 1 por cento, ou menos, em 1984 (o programa do Fundo previa atingir essa meta apenas em 1985).

O malogro ou, quando muito, uma redução do ritmo de recuperação dos países em desenvolvimento poderia representar um custo demasiadamente elevado, em face das fortes pressões sociais presentes em quase todos eles. O sucesso do ajustamento promovido pelo Brasil tem, como contrapartida, uma redução da renda per capita, entre 1980 e 1983, de aproximadamente 12 porcento, considerando que se trata de um país que já tem cerca de 30 por cento de sua população vivendo em condições de pobreza absoluta. A queda do emprego industrial não foi inferior a 23 por cento, entre 1980 e Março de 1984; os investimentos privados atingiram os níveis mais baixos nos últimos 30 anos, e a diferença entre o PIB registado e o PIB potencial foi estimada, pelo Banco Mundial, em 24 por cento em 1984, equivalente a US$63 bilhões.

A redução drástica das trocas entre os países em desenvolvimento, assolados por uma crise de liquidez sem precedentes nos últimos 30 anos, trouxe como corolário um redirecionamento do comércio mundial. Ademais, vinha-se observando, desde o primeiro “choque” do petróleo, uma alteração, cada vez mais pronunciada, na composição do fluxo de capital dos países industrializados em direção aos países em desenvolvimento. Registava-se, de forma crescente, uma substituição do investimento direto (capital de risco) pelo ingresso de capital financeiro, proveniente, em largaescala, dos bancos privados. Essa tendência, em período recente, deve modificar-se pelo aumento dos aportes de recursos oficiais, originários de instituições financeiras internacionais do tipo Banco Mundial, Fundo, etc. Essas novas realidades, de qualquer forma, ampliaram a vulnerabilidade dos países em desenvolvimento, sobretudo os do mundo ocidental, a “choques” externos, em razão de sua crescente subordinação aos eventos de política econômica, especialmente no âmbito dos países industrializados.

Essa dependência, sublinhada anteriormente, age no sentido de subtrair cada vez mais aos países em desenvolvimento a autonomia da escolha de seus próprios caminhos. O manejo da política econômica doméstica passou a incorporar fortes elementos de incerteza, visto que os rumos assumidos pela economia passaram a ser função, em larga medida, do comportamento de variáveis externas. Essa nova realidade encerra factores de inquietação nada desprezíveis. Um deles confronta, de um lado, a permanente preocupação dos países industrializados com o combate à inflação; e, de outro, a necessidade dos países em desenvolvimento de expandirem a sua capacidade produtiva, de modo a absorverem os crescentes contingentes de mão-de-obra que se apresentam ao mercado de trabalho, a cada ano. Pelo menos a curto prazo esses objetivos são antagónicos—a recuperação dos países em desenvolvimento e o equacionamento satisfatório do seu endividamento externo não se concretizarão sem uma harmonização adequada dos objetivos de política econômia das partes envolvidas.

O caso brasileiro ilustra de forma convincente o argumento anterior, relativo à evidente sensibilidade das principais variáveis macroeconômicas domésticas perante os cenários externos. Essa análise de sensibilidade tem sido feita através do emprego de um modelo de projeções de variáveis macroeconômicas do tipo Two-Steps Model. O exercício consiste em simular cenários alternativos, tanto para a economia mundial quanto para a doméstica, e projetar, com base nesses cenários, o balanço de pagamentos do país. O modelo permite uma variedade considerável de combinações de cenários e “saídas.” Porém, para a aplicação presente, selecionaram-se apenas 5 variáveis: sendo 3 externas—LIBOR (taxa interbancária oferecida em Londres) (6 meses), crescimento do comércio mundial e crescimento real dos preços do petróleo; e 2 domésticas—desvalorização real da taxa de câmbio e crescimento do produto industrial. Como “saída,” elegeu-se o stock da dívida externa no final de 1991; essa escolha levou em consideração apenas o objetivo de simplificação. A tabela registra os cenários básicos traçados para essas variáveis, que não diferem muito das expectativas do trabalho do Struckmeyer, e cinco simulações efetuadas a partir desse cenário básico. As simulações consistiram em elevar em 1 por cento (um ponto percentual) a taxada LIBOR (6 meses), reduzirem 1 por cento o crescimento do comércio mundial e considerar estável a evolução dos preços reais do petróleo. No plano doméstico, admitir uma desvalorização real da taxa de câmbio da ordem de 3 por cento e aceitar uma expansão do produto industrial de 1 por cento acima do previsto na simulação básica.

O exercício exibe, de forma nítida, que a sensibilidade da economia brasileira aos cenários externos é indiscutível. Os resultados da simulação revelam que 1 por cento a mais na LIBOR (6 meses) resultaria numa dívida adicional de US$6,2 bilhões; uma expansão de 1 por cento a menos do comércio mundial acarretaria cerca de US$9,5 bilhões a mais de dívida; e a estabilidade dos preços reais do petróleo refletiria uma redução da dívida de US$2,6 bilhões. Com respeito a esse último resultado, deve salientar-se que o país está cada vez menos vulnerável a “choques” de preços do petróleo (a evolução da produção doméstica, para efeito do exercício, é ainda considerada conservadora). Do lado das variáveis domésticas, a desvalorização real da taxa de câmbio de 3 por cento acima da paridade tem efeitos ponderáveis e espelharia uma redução da dívida de US$17,7 bilhões; a hipótese de admitir-se uma expansão do produto industrial de 1 por cento acima da simulação básica resultaria num endividamento adicional de US$15,7 bilhões. O emprego da desvalorização real da taxa de câmbio, no caso da economia brasileira, tem contra-indicações importantes; a maior delas é a sua pesada influência sobre a taxa da inflação, porquanto o sistema de indexação propagaria e ampliaria o seu efeito.

A ilustração anterior almeja deixar patente a estreita dependência que guarda a recuperação dos países em desenvolvimento das perspectivas das economias dos países industrializados. No caso da economia brasileira, uma trajetória de crescimento equivalente a 5,7 por cento ao ano, no período 1986/91, será suficiente apenas para restaurar o nível de renda per capita vigente em 1980. Nesse sentido, qualquer alteração desfavorável que se verificar nos cenários construídos para as economias dos países industrializados, para os próximos anos, abortará tal objetivo—sob todos os aspectos ainda muito modesto.

Quadro 1.Cenários e Simulações, 1985-91
Descrição1985198619871988198919901991
Simulação Básica
LIBOR (6 meses)11,59,59,59,59,59,59,5
Crescimento do comércio mundial3,82,53,73,73,73,33,3
Desvalorização real da taxa de câmbio5,50,00,00,00,00,00,0
Crescimento real dos preços do petróleo(–5,5)2,02,02,02,02,02,0
Crescimento do produto industrial4,85,75,75,75,75,75,7
Stock da dívida externa105,9107,8109,7111,4113,7116,6120,9
Simulações Alternativas
LIBOR (6 meses)10,510,510,510,510,510,5
Stock da dívida externa108,5111,2113,9117,3121,4127,1
Crescimento do comércio mundial1,52,72,72,32,32,3
Stock da dívida externa108,1110,5113,4117,4122,8130,4
Desvalorização real da taxa de câmbio3,03,03,03,03,03,0
Stock da dívida externa107,3108,1107,9107,1105,4103,2
Crescimento real dos preços do petróleo0,00,00,00,00,00,0
Stock da dívida externa107,7109,4110,9112,8115,1118,3
Crescimento do produto industrial6,76,76,76,76,76,7
Stock da dívida externa108,2111,1114,7119,7126,6136,6

Como observação final, não poderíamos deixar de sancionar as recomendações do trabalho do Struckmeyer, que advoga um esforço na direcção de fomentar ainda mais a cooperação internacional no campo financeiro e comercial e, sobretudo, na tentativa de harmonizar as linhas básicas da política econômica, especialmente dos países industrializados. Acrescentaríamos às sugestões alinhadas uma outra, no sentido de se desenvolverem esforços especiais, talvez no âmbito do Fundo, com o escopo de aperfeiçoamento dos métodos de previsão, para proporcionar, particularmente aos países em desenvolvimento, referenciais mais claros que lhes permitam traçar, com mais segurança, as suas linhas básicas de política econômica.

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